Entenda a guerra comercial que afeta a economia mundial

Entenda a guerra comercial que afeta a economia mundial

Desde que começou o segundo mandato como presidente dos Estados Unidos, Donald Trump dava sinais de deflagrar uma guerra comercial. Na mira estão parceiros, a exemplo de Canadá e México, e concorrentes, como na China.

O Brasil também não saiu ileso da linha de tiro.

A guerra comercial teve data para começar: 2 de abril, chamado pelo republicano como “Dia da Libertação”. O presidente dos EUA definiu a data como um “dia histórico para a América” e afirmou que as medidas farão o país “rico novamente”.

Quem pagará a conta será uma centena de países. A China ficou com uma taxa de reciprocidade de 34%, mais a tarifa prévia de 20% por itens chineses. A União Europeia ficou com uma tarifa de 20%, enquanto o Brasil ficou com uma taxação de 10% sobre as importações com destino aos EUA.

Ao todo, 185 países serão taxados a partir do dia 5 de abril com porcentagens entre 10% e 50%.

Para definir as tarifas, Washington fez o seguinte cálculo: o déficit comercial do país dividido por suas exportações para os Estados Unidos, e depois dividido pela metade.

Por exemplo, a diferença entre o valor que os Estados Unidos importam da China e o que exportam para o país asiático é de US$ 295 bilhões. O total das importações provenientes da China soma US$ 440 bilhões (aproximadamente R$ 2,46 trilhões).

Ao dividir 295 por 440, obtém-se cerca de 67%. Esse percentual, quando reduzido pela metade e arredondado, resulta em 34%.

Apesar do cálculo, foi estabelecido um piso de 10% na tarifa para alguns países com saldo negativo na balança comercial com os Estados Unidos. É o caso do Brasil, Reino Unido e Cingapura.

Por que Trump começou essa guerra tarifária?

No discurso oficial, o tarifaço busca promover a economia norte-americana por meio de investimentos privados em novas fábricas e tecnologias. Com isso, a população local terá acesso a mais oportunidades de emprego e renda.

Por outro lado, o movimento pode ser enxergado como um aceno à base eleitoral.

O professor da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, Pedro Brites, afirma que a medida de Trump é uma espécie de discurso populista, pois mobiliza a base política local, tanto de homens brancos conservadores quanto das elites econômicas norte-americanas.

Uma das bases desse discurso está na retomada do protagonismo da indústria dos Estados Unidos, que há décadas passam por um movimento de saída do país.

“As indústrias americanas passaram a se instalar em outros países, os produtos estão sendo feitos por outros mercados que não mais os Estados Unidos, isso levou os empregos. Portanto, se se igualarem as tarifas, esses países passariam a deixar de ter o privilégio que os mantêm competitivos, e esses empregos poderiam voltar para os Estados Unidos”, afirma Brites.

No lado internacional, o professor avalia que a imposição de tarifas para importações aos Estados Unidos visa restabelecer o poder econômico que o país tinha diante dos seus concorrentes, além de retomar a liderança política mundial, abalada pela China.

O mercado tomado de assalto

O anúncio foi feito na tarde da quarta-feira, após os fechamentos dos mercados em Wall Street.

A reação, porém, foi imediata nos índices futuros, que despencaram conforme os investidores digeriam as informações.

A reação se estendeu para a quinta, com queda generalizada nas principais bolsas do mundo.

O S&P 500  perdeu 275,05 pontos, ou 4,85%, para fechar em 5.395,92 pontos, enquanto o Nasdaq caiu 1.053,60 pontos, ou 5,99%, para 16.547,45. O Dow Jones caiu 1.682,61 pontos, ou 3,98%, para 40.542,71.

O contrato de ouro para junho recuou 1,41%, fechando a US$ 3.121,7 por onça-troy na Comex, divisão de metais de Nova York.

Nesse ponto, os investidores do mercado financeiro se mostraram preocupados com a maior economia do mundo.

Com taxas maiores, o consumo dos norte-americanos pode diminuir e, consequentemente, afetar a venda de produtos e serviços no país, o que impacta a demanda de matérias-primas e serviços por empresas e fábricas dos EUA, apontam análises.

O economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung, avalia que a dinâmica da bolsa e das moedas reflete a aversão ao risco do mercado em relação às incertezas com a guerra comercial e os efeitos sobre a inflação, crescimento e juros nos país.

“Após o anúncio das tarifas, o mercado passou a adotar uma visão mais pessimista em relação à atividade econômica norte-americana e global, incorporando a expectativa de uma desaceleração mais acentuada”, avalia o economista-chefe da Suno Research.

Essa instabilidade se reflete também nos mercados financeiros, com aumento da volatilidade e variações nos principais índices de ações.

Bruno Imaizumi, economista da LCA, detalha o movimento do mercado de ações, ressaltando a falta de clareza com as medidas do republicano.

“Quando há mais incerteza em jogo, os agentes do mercado procuram segurança: vendem ações nos mercados de bolsas de valores internacionais e buscam comprar ativos mais seguros, que trazem menor risco e maior estabilidade, como ouro e outras moedas mais fortes”.

O contra-ataque

As reações foram além do mercado financeiro e se arrastaram pelos dias seguintes ao anúncio do tarifaço.

Na sexta-feira (4), a China anunciou uma taxa recíproca de 34% para todas as importações norte-americanas ao país. O sobrepreço começa a valer a partir de 10 de abril.

“Essa prática dos EUA não está de acordo com as regras do comércio internacional, prejudica seriamente os direitos e interesses legítimos da China e é uma prática típica de intimidação unilateral”, disse a Comissão de Tarifas do Conselho de Estado da China, em comunicado.

Pequim também entrou com uma consulta junto à Organização Mundial do Comércio (OMC) por conta das medidas de Washington.

Em resposta, Trump disse que a China teve um ataque de pânico e “jogou errado”.

A guerra comercial pode desencadear uma disputa internacional com taxas, restrições à importação e imposição de cotas como armas. Essas movimentações elevam a incerteza sobre a economia global, diz o economista da LCA.

“Podemos observar desacelerações no crescimento econômico e aumento da inflação, já que, possivelmente, cadeias de suprimentos serão afetadas e trarão mais custos para empresas e consumidores”, afirma Imaizumi

O economista-chefe da Suno Research acrescenta que a escalada nas tensões comerciais pode levar a acordos entre países como resposta a Trump.

“É possível que haja uma aceleração na formação de novos acordos bilaterais, como o recentemente firmado entre China, Coreia do Sul e Japão. O acordo entre Mercosul e União Europeia pode voltar à mesa”, diz Sung.

O que está por vir?

Na avaliação dos especialistas, a guerra comercial pode se agravar e não tem data para terminar. O que está claro é que haverá movimentações econômicas em resposta e como resultado ao tarifaço de Trump.

Imaizumi, da LCA 4intelligence, projeta que países procurarão retaliar as tarifas impostas pelo presidente norte-americano, “que nunca admite estar errado ou volta atrás de suas decisões”.

“Podemos ver uma guerra comercial mais prolongada, a qual poderia levar a impactos econômicos mais negativos, como uma recessão econômica global”, acrescenta.

O professor da Escola de Relações Internacionais da FGV, Pedro Brites, explica que a troca ou diminuição da dependência econômica dos países frente aos EUA é um movimento complexo e demanda tempo.

Em outras palavras, será uma reorganização do mercado internacional, e os resultados são incertos e podem chegar a outros países.

“Esses produtos que vão deixar de entrar para os Estados Unidos terão que ser escoados para outros lugares, como o mercado sul-americano. Isso pode gerar um aumento dos produtos importados aqui para a nossa região, por exemplo, e gerar impacto sobre as cadeias produtivas locais”, diz.

Em paralelo, os países precisarão mostrar às suas populações e mercados que estão lutando na guerra comercial iniciada por Trump.

“É um momento de bastante turbulência na economia internacional, pelo menos nos próximos meses, até que esse cenário avance”, finaliza Brites.

Veja as principais ações assinadas por Trump no 1º dia de mandato



Link original
Publicações relacionadas
Deixe uma resposta

Seu endereço de e-mail não será publicado.Os campos obrigatórios estão marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.