A decisão do governo dos Estados Unidos de impor tarifas recíprocas contra diversos países, nesta quarta-feira (2), reacendeu o debate sobre os rumos do comércio global, com economistas e analistas divergindo sobre os reais impactos da medida.
A Casa Branca defende as tarifas como necessárias para proteger a indústria norte-americana e corrigir distorções comerciais. Mas parte do mercado financeiro teme efeitos colaterais, como recessão e inflação, enquanto outros enxergam oportunidades para nações emergentes como o Brasil, que recebeu a menor taxa entre os países afetados.
O anúncio feito pelo presidente Donald Trump estabelece uma tarifa-base de 10% para todos os países, com acréscimos proporcionais às barreiras que cada nação impõe aos produtos norte-americanos, numa estratégia que especialistas classificam como protecionismo calculado.
Breno Falseti, sócio da Rubik Capital, nota que o Brasil ganhou a menor tarifa dentre os países emergentes afetados, o que é “relativamente” favorável.
“Essa posição relativamente favorável pode oferecer ao Brasil uma vantagem competitiva em relação a outros mercados emergentes. Essa percepção já influenciou positivamente os mercados financeiros: o real valorizou-se 0,3% frente ao dólar, e os juros futuros registraram uma queda de 0,5%”, afirmou.
O Brasil saiu no lucro com uma taxação de apenas 10%, segundo um gestor de fundo ouvido pela CNN. Em tom de brincadeira, o economista disse que os técnicos da Casa Branca não entenderam que o ICMS é um imposto sobre valor adicionado.
À CNN, o estrategista-chefe da RB Investimentos Gustavo Cruz comentou que o anúncio foi diferente do que estava sendo prometido. Mesmo assim, para ele, o acordo pode ser benéfico para o Brasil que pode aumentar as exportações para outros países.
“Temos que ver exatamente o que vai ser colocado em prática no dia 5 de abril, se não vai ter alguma surpresa, porque durante a entrevista ele falou que é que a Austrália não deixa entrar a carne deles, então eles não deixariam entrar a carne australiana, isso seria extremamente benéfico para o Brasil, porque o Brasil é o outro grande rebanho do mundo”, frisou.
Ele ainda ressaltou que outros países foram mais taxados que o Brasil, o que dá essa “vantagem”, podendo pleitear esse lugar nas demais balanças comerciais.
“Mas é claro que a gente tem que acompanhar para ver como vai ser o desdobramento, se é isso mesmo, se ele só não está falando números mais altos para outros países, depois vai reduzir. Tudo isso faz bastante diferença na conta final”, destacou.
EUA tentam corrigir desequilíbrios comerciais
O economista Breno Falseti relembra que a intenção de Trump é, ostensivamente, revitalizar a manufatura nos Estados Unidos e corrigir desequilíbrios comerciais, além de recuperar os empregos fabris americanos.
O sócio da Rubik Capital ainda pontuou que o tarifaço de Trump pode deixar o dólar mais fraco globalmente, como forma de deixar os produtos norte-americanos mais atrativos e reduzir a dificuldade de refinanciamento da dívida dos EUA.
Já o economista sênior do Inter André Valério cita um estudo do FMI, cobrindo 151 países entre 1963 e 2014, com evidências de que aumentos nas tarifas levam, na maioria das vezes, a uma apreciação da taxa real de câmbio, na mesma magnitude do aumento das tarifas.
“Por conta disso, o impacto sobre a balança comercial tende a ser nulo, com as tarifas limitando as importações, tornando-as mais caras, ao mesmo tempo em que a apreciação da taxa real de câmbio torna as importações mais baratas”, destacou.
Impacto nas Bolsas dos EUA
O gestor de investimentos da Warren Frederico Nobre analisa que o grau de incerteza deve impactar a bolsa americana.
“Hoje a gente viu o S&P reverter alguns ganhos no intraday e recuar cerca de 1,7%, e o Nasdaq recuar também um pouco mais, cerca de 2,4%. Quando a gente olha para a composição dos fundos, dos ETFs, dos índices, S&P 500 e o Nasdaq, você pega o Nasdaq, que tem uma composição maior das Magnificent Seven, ou seja, das empresas de tecnologia”, frisou.
“Essas empresas são mais expostas a riscos globais, porque tem uma parte maior da receita vinda de fora dos Estados Unidos, e isso acaba trazendo um grau de incerteza maior.”
Nobre também destacou que a situação vai acabar “aumentando os custos das empresas” e algum nível de repasse, gerando inflação e redução dos lucros corporativos.
Por volta das 20h50, os futuros do Dow caiam 1.065 pontos, ou 2,51%. Os futuros do S&P 500 afundavam 3,63%. Os futuros vinculados ao Nasdaq 100 caíram 4,48%.
Abertura comercial reduz impacto de tarifas de Trump no Brasil? Entenda
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